27.9.07

CAVERN CLUB (antes da fama)

Muito antes dos Beatles se tornarem a sua atração principal no horário do almoço em 1961, o prédio onde se instalaria o futuro Cavern Club já fazia barulho em Liverpool. Alan Sytner, filho de um médico da cidade, encantado com um clube de jazz que viu em Paris chamado Le Caveau, pediu para o pai comprar aquela casa de vinhos, na Mathews Street, imóvel onde se instalaria, no futuro, o Cavern. O imóvel era apenas mais um depósito da Mathew Street, uma rua repleta de depósitos de peixes, frutas, legumes e vinhos. Há um movimento grande, durante o dia, naquela região porque os comerciantes de Liverpool usam os depósitos para guardar suas mercadorias. Sytner adquiriu o imóvel em 1957 e o reformou nos moldes do clube de jazz francês. Durante a Segunda Grande Guerra, os porões daquela adega serviram de abrigo à população, contra os bombardeios alemães.

A inauguração do Cavern Club aconteceu em 16 de janeiro de 1957, com a apresentação da banda de jazz local, Merseysippi. Ironicamente, no jazz club, ex-adega, era proibido vender bebidas alcoólicas, e os músicos e a platéia iam durante os intervalos, beber um trago, do outro lado da rua. Os grupos de skiffle (tipo de música difundido no norte da Inglaterra nos anos 50) aproveitavam esse intervalo para se apresentarem. Os shows dos grupos de skiffle atraíam um número cada vez maior de adolescentes. Um fato não surpreendente, pois a cidade contava com mais de trezentos conjuntos em 1957. Os Quarrymen (o embrião dos Beatles), Gerry and Pacemakers, Rory Storm & Hurricanes, Swinging Blue Jeans estavam entre eles. Apesar disso, o Cavern manteve- se como um reduto do jazz que era considerada uma música nobre, elevada, de bom gosto. Ao contrário, dos “rocks pobres, barulhentos e desprezíveis” que os “conjuntinhos” de skiffle costumavam tocar.

Em 7 de agosto de 1957, os Quarrymen, grupo que John Lennon formou com os seus amigos de escola, tocaram lá, apresentando músicas de Elvis Presley. Depois desta apresentação, receberam um bilhete de Alan Sytner com o seguinte recado: “Descartem esse rock’n’roll sangrento”. Mas, o castigo não demorou muito. Alan Sytner, o proprietário do distinto Cavern Club, passou o comando da casa para o seu pai. Alan foi morar em Londres, onde se casou. No entanto, o pai dele teve que vendê- lo em 1959 por causa da concorrência de uma nova casa de jazz, a Madri Grass Jazz Club. O novo dono do Cavern, Ray McFall, era o contador de Sytner. Ele, então, virou o disco. Trocou o refinado som do jazz pelo som áspero e cru da garotada do skiffle.

27.2.07

O espetacular sonho de amor de George Harrison

As corridas de Fórmula 1 eram uma das grandes paixões de George Harrison e de Guy Laliberté, um dos fundadores do Cirque du Soleil. Eles se conheceram no Grande Prêmio de Montreal, no Canadá, em 1995, e se tornaram grandes amigos. Laliberté era uma espécie de anfitrião do GP canadense e costumava organizar jantares. Em uma dessas ocasiões, Harrison assistiu uma apresentação e voltou para casa maravilhado com o que viu. Em 1999, ele contou a Laliberté que sonhava em ver um dia um espetáculo do Cirque du Soleil, tendo os Beatles como tema principal. Um dos últimos encontros entre George Harrison e Paul McCartney foi justamente para assistir a um show da companhia de circo canadense em Las Vegas, nos Estados Unidos. Em junho de 2000, houve uma reunião entre George Harrison, Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Guy Laliberté, na qual este propôs aos quatro a criação de um espetáculo feito pelo Cirque du Soleil que tratasse dos Beatles. A proposta foi aceita. O caminho do sonho de Harrison estava aberto. Mas, infelizmente, ele não acompanhou nenhuma das etapas de trabalho para a realização do espetáculo, batizado de “Love”. George Harrison morreu em 29 de novembro de 2001, aos 58 anos de idade, após uma batalha de quatro anos contra o câncer.

Guy Laliberté conversou com o diretor de criação Gilles Ste-Croix sobre a idéia do show. Planos começaram a ser discutidos. Dominic Champagne foi designado para escrever e dirigir “Love”. A Apple, empresa que cuida dos negócios Beatles, atribuiu ao produtor musical do grupo, George Martin, a tarefa de fazer a trilha sonora, com uma hora e meia de duração, do espetáculo. Ste-Croix afirmou que as cenas de “Love” exploram o conteúdo das canções dos Beatles que, segundo ele, “se encontram na realidade e no imaginário das pessoas”. Já Champagne disse que “quis criar uma experiência com os Beatles, ao invés, de contar cronologicamente a história deles, levando a platéia a uma viagem de emoções”.

Em março de 2003, George Martin começou a trabalhar na trilha sonora de “Love”. Apesar de ele já ter declarado estar aposentado, o convite foi irrecusável. A sua audição está ruim já há algum tempo e o quinto beatle, como é conhecido, completou 81 anos em 3 de janeiro de 2007. A Apple só lhe exigiu uma coisa: que, nada além das músicas dos Beatles, material gravado ou inédito, poderia ser utilizado na trilha sonora. O desafio estava lançado. Como criar algo novo usando a irretocável obra dos Beatles? Para auxiliá-lo nessa empreitada, que durou três anos para ser concluída, George Martin chamou o seu filho, Giles. Ambos tiveram à sua disposição todos os tapes originais gravados pelo quarteto de Liverpool nos estúdios da Abbey Road, em Londres. A linha mestra para a criação da trilha sonora de “Love” surgiu da cabeça de Giles, que começou a fazer experimentações com as faixas, colocando, por exemplo, a instrumentação da música “Tomorrow Never Knows”, do álbum “Revolver”, em “Within You Without You”, canção de George Harrison composta para o “Sgt. Pepper’s”. Essas misturas sonoras deram outros bons resultados, como “Octopus’s Garden”, do álbum “Abbey Road”, que tem o vocal de Ringo e, ao fundo, os arranjos de violino de “Good Night”, do Álbum Branco. Os primeiros acordes de violão de “Blackbird” se juntaram aos primeiros acordes de violão de “Yesterday” e deu certo. Várias canções dos Beatles se juntaram naturalmente umas às outras em combinações perfeitas. Algo semelhante a uma costura. Houve, o que facilitou os trabalhos de pai e filho, a utilização de uma técnica denominada “mash-up”, que em português, significa colagem. Os fãs mais velhos dos Beatles perderam o sono, quando as primeiras notícias revelaram que a trilha sonora de ”Love” seria uma colagem sonora. Eles imaginaram que haveria as manobras de algum DJ ou outros sons, como o de uma bateria eletrônica programada, incorporados as músicas do grupo. Porém, a afirmação de George Martin, de que “a essência da música dos Beatles permaneceria intacta” os deixou mais tranqüilos. Ainda assim, muitos veteranos desdenharam de “Love”. Diferentemente de Paul, Ringo, Yoko e Olivia, que além de supervisionar todos os remixes, não fizeram nenhuma censura ao trabalho da dupla de produtores. Um momento de tensão ocorreu quando a viúva de George Harrison, Olivia, ficou temerosa ao ceder a demo de “While My Guitar Gently Weeps”, onde George Harrison, sozinho, se acompanha ao violão. Ela achava a versão da música muito intimista para ser colocada no show do Cirque du Soleil, diante de grandes platéias. Mesmo que, nos anos 90, Harrison tenha autorizado a sua inclusão no CD duplo “Anthology 3”. Ele era muito rigoroso com as suas canções. A apreensão de Olivia diminuiu, quando o produtor George Martin, acatando uma sugestão de Giles, fez um arranjo de violinos para a demo de “While My Guitar Gently Weeps”. A delicada tarefa deixou o experiente quinto beatle nervoso, porque ele sabia da resistência da viúva. Mas, no final de tudo, Olivia aprovou a nova versão da música, a classificando de “absolutamente apropriada, respeitosa e genial”. Dhani, o seu único filho com o ex-Beatle, pediu também que a mãe liberasse a utilização da música de seu pai. Os frutos dessa jornada estavam sendo tão bons que, logo, George e Giles Martin perceberam que a trilha sonora de “Love” resultaria inevitavelmente em um álbum. Em 2 de outubro de 2006, a Apple anunciou o lançamento do CD, que também se chamou “Love”. Na Inglaterra, ele chegou às lojas em 20 de novembro de 2006, e nos Estados Unidos, no dia seguinte. O álbum apresenta vinte e seis faixas em som estéreo. A edição especial do CD vem com um livreto de vinte e oito páginas e um DVD áudio em mixagem 5.1. Este DVD tem oitenta e um minutos, em números redondos, três minutos a mais que o CD. Não há imagens contidas nele. É a primeira vez que as músicas dos Beatles são apresentadas no formato 5.1, um sistema de áudio com seis canais. Embora, em 1999, o DVD “Yellow Submarine” tenha sido restaurado e relançado, utilizando o áudio 5.1, ele não pode ser considerado um trabalho eminentemente musical, como é o caso do DVD de “Love”, por se tratar de um desenho animado. A edição simples de “Love” traz apenas o CD. Outra explicação: se “Love”, o espetáculo do Cirque du Soleil sobre os Beatles, dura noventa minutos, então por que o CD tem setenta e oitos minutos? Porque no álbum os diálogos do grupo em estúdio, presentes no show, foram retirados.

“Love”, o show, está em cartaz no Mirage Hotel, em Las Vegas. O orçamento dessa produção da Apple em parceria com o Cirque du Soleil gira em torno de cento e cinqüenta milhões de dólares. O elenco conta com sessenta artistas. O teatro do hotel foi especialmente reformado para abrigar “Love”. Lá, foram instaladas 2.013 poltronas, com três alto-falantes acoplados a cada uma. Um situado na frente do assento e os outros dois alto-falantes ficam, cada um, nas duas laterais. O som é tão perfeito que o espectador tem a sensação que os Beatles estão no palco. Há também dois telões de alta definição. A expectativa da administração do Mirage é que o show permaneça lá, no mínimo, por dez anos. O diretor do show Dominic Champagne e George Martin conversaram e trocavam opiniões constantemente sobre as cenas de “Love”, sobre qual seria o melhor remix para uma determinada cena, assim como um remix poderia servir de inspiração para a construção de uma seqüência do espetáculo.

A música dos Beatles é o tema principal de “Love”. A pré-estréia de gala do show aconteceu na noite de 30 de junho de 2006 e houve duas apresentações exclusivas para mais de quatro mil convidados especiais. Amigos e parentes dos Beatles. Paul McCartney, Ringo Starr e a sua esposa Barbara Bach, George Martin e a sua esposa Judy e as viúvas de John Lennon e George Harrison, Yoko Ono e Olivia Harrison, respectivamente. Esta última estava na companhia de seu filho, Dhani. Todos eles prestigiaram a pré-estréia de “Love”. Um evento raro e histórico, principalmente depois de 1970, ano em que os Beatles se separaram. Após essa data, pouco se viu dois ou três ex-Beatles juntos, em público. Muita gente intimamente ligada a eles compareceu: Cynthia, a primeira mulher de John Lennon, e o filho deles, o cantor Julian; o fotógrafo e cantor Mike McCartney, irmão de Paul; John Eastman, irmão de Linda, a primeira mulher de Paul McCartney, que morreu em 1998; Peter Asher, da dupla musical Peter & Gordon, famosa nos anos sessenta; (Peter é o irmão de Jane Asher, uma atriz de teatro com quem Paul teve o seu primeiro namoro sério); Jeff Lynne, ex-Eletric Light Orchestra, que produziu “Free As A Bird” e “Real Love”; o diretor da Apple, Neil Aspinall; e dois grandes amigos de George Harrison, o citarista indiano Ravi Shankar e Eric Idle, do grupo humorístico The Rutles. Os membros da nona formação da All-Starr-Band, grupo que acompanha Ringo Starr em suas turnês, também estavam lá. São eles: Rod Argent, ex-Zombies, o cantor e guitarrista Billy Squier, o cantor Richard Marx, o guitarrista Edgar Winter, o baixista Hamish Stuart e a baterista Sheila E. Presentes, ainda, o guitarrista Rusty Anderson, o tecladista Paul ‘Wix’ Wickens e o baixista e guitarrista Brian Ray, atuais integrantes do grupo de Paul McCartney.
Confira os nomes de outros vips: o eterno Beach Boy Brian Wilson, o ex-baterista do The Doors, John Densmore, o cantor Tony Bennett, o pop star dos anos oitenta, Prince, o vocalista do Velvet Revolver, Scott Weiland, a cantora Roberta Flack, o ex-líder do Mean To Work, Colin Ray, a viúva do cantor Roy Orbison, Barbara Orbison, o ex-integrante do Eurythmics, Dave Stewart, entre outros nomes.